Modelo em crise


José Sarney – Ex-Presidente da República

A globalização econômica continua a semear seus efeitos perversos. Há processos que vieram para ficar; outros, condenados a perecer. Não é que vá desaparecer a inevitável mundialização da economia, num horizonte cada vez menor, aproximadas as distâncias pelas conquistas tecnológicas. Chegaremos um dia a um mundo sem divisões, a um mundo solidário. Vai levar tempo. Mas a unidade não prescinde da vigilância nem será capaz de apagar as afirmações nacionais. Estamos no meko desse processo. Globalizaram-se as comunicações e os mercados financeiros. Um e outros frutos da mesma árvore e interdependentes.
Isso fez com que os mais ricos invadissem os mais pobres, criassem as suas próprias leis, invocando um mercado que, muito mais do que resolver, agrava as vulnerabilidades e desigualdades entre países ricos e países pobres, entre povos pobres e povos abastados. A concentração de renda é a mais brutal da história da humanidade e, desgraçadamente, o Brasil é o pior entre os desiguais.
A crise que estamos vivendo é a mais séria de todas. Os Estados Unidos, em vez de pronunciar palavras de apoio e incentivo, devia tomar medidas efetivas de cooperação. Em vez de dizer que apóia o plano econômico, devia abrir as barreiras alfandegárias, suspender a taxação sobre o nosso aço, os sapatos e os sucos e banir as barreiras sanitárias de araque que impedem a concorrência de nossos produtos agrícolas.
A Europa devia permitir a importação de produtos agrícolas e abrir também suas barreiras. Essas medidas teriam mais efeito do que a falácia das solidariedades. Isso seria mais efetivo e encorajador.
Mas o que ocorre é o inverso. Fecham e protegem os mercados e exigem que se abram os nossos, sem restrições nem barreiras para a prática da especulação desenfreada, do comércio predatório e de um capitalismo sem riscos. Um sistema com essa carga de injustiça não vai sobreviver.
As consequências humanas desse modismo são a desmontagem do Estado do bem-estar e a liquidação do emprego. A palavra desemprego é pequena e gasta para expressar o que é o desempregado: aquele que perde a segurança da comida, da educação dos filhos, da saúde, do lazer, até a esperança e passa a conviver com o medo, a insegurança, a revolta, a miséria, a degradação humana.
O Brasil mais uma vez é vítima desse modelo mundial do qual é difícil fugir. Os capitais que ganharam demais saem para as outras bandas, deixando a instabilidade. O mundo está nervoso. Vivemos de sinais, e os sinais de alarme estão aí. Agora, eles começam a saber que não é impunemente que agem. Nova York, Tóquio, Bolsas globais caem no nosso rastilho.
É hora de defendermos o Brasil, de ocuparmos o terreno comum de nossas convergências e aprendermos lições. Não cairemos sós. Não é consolo, mas um exemplo para forçar mudanças.
É preciso não vacilar e ter coragem para enfrentar desafios. O Brasil não foi feito para fracassos. As crises virão, mas serão superadas.