Irmãos, mas olhe lá!



José Sarney – Ex presidente da República

Nossas relações com os Estados Unidos sempre foram marcadas por idas e vindas, equívocos e vacilações. Joaquim Nabuco, embaixador em Washington, sonhou uma irmandade eterna, um matrimônio sem desencontros e o Brasil transformado nos Estados Unidos da América do Sul. Monroe pregou a doutrina da “América para os americanos”; Roosevelt, a “política de boa vizinhança”; Kennedy, a “Aliança para o Progresso”. Essas iniciativas esgotaram-se nas palavras e motivações. Augusto Frederico Schmidt, poeta e homem público, no governo Juscelino, lançou a Operação Pan-Americana, a OPA, da qual sobreviveu o BID Banco Interamericano de Desenvolvimento. A OEA, mais antiga, está em sono profundo e só desperta pelo esforço dos diplomatas que ali trabalham.

As relações que eram sonhadas de um destino comum ficaram restritas às trocas econômicas. O elo que funcionou foi o dos interesses comerciais. Os Estados Unidos viveram recentemente a maior prosperidade de sua história. Seria o momento exato para eles proporem um grande projeto para a América Latina, de uma agenda a ser construída para a melhoria da situação social da região, marcada por tantas desigualdades e injustiças. Belo ideal para o sonho americano de uma América solidária. Mas a realidade é outra.

O momento foi marcado pela fúria de ocupação de nossas economias pelas companhias globais, pelas privatizações e globalização financeira com efeitos perversos de concentração de renda e especulação, numa corrida para domínio de mercado. Os EUA tinham um déficit monumental de US$ 300 bilhões em sua balança comercial. Compraram mais do que venderam, com dinheiro demais. O Brasil era um dos poucos países que estava na mão inversa, com o qual os americanos tinham o seu quarto superávit comercial! Mesmo assim, nos trataram com mão-de-ferro.

Na virada do milênio tivemos mais três produtos atingidos pelas barreiras americanas: laminados de aço a quente, aço a frio e frio-máquina (espécie de fio de aço), isso para não falar dos 80 produtos brasileiros com tratamento discriminatório. As barreiras americanas são usadas para proteger suas indústrias obsoletas e ineficientes, setores que não podem competir conosco, como o de sucos. E nós?

Nossa reação tem sido de benevolência, como o financiamento das companhias americanas na privatização do setor elétrico. O Brasil, assim, não tem condições de expandir o seu comércio exterior. Os Estados Unidos crescem a 3% ao ano. Isso significa que a cada ano cresce um Brasil. Nossas exportações para lá, que já foram de 1,7%, perdem posição e, hoje, são de 1%.

As relações Brasil-Estados Unidos estão abaixo de nossas aspirações. São marcadas por grande predominância econômica e política, ameaças de sanções e muito protecionismo por parte dos EUA. Não seria o momento de repensá-las e lutar mais forte por nossos interesses? Os grandes são sempre temidos, poucas vezes amados. Como chegaremos algum dia, Brasil e Estados Unidos, a uma relação sem dependência e de fraternidade, sem explorações? Até lá, irmãos; mas, olhe lá!